Considera-se um profissional ou um amador da locução e dobragem?

Claro que como em todas as profissões, há questões que nos levam aos “píncaros” para não dizer outra coisa! Mas há uma delas que me deixa doente até. Sim. Fico “doente” só de ouvir gente malformada e informada. Apenas isso.
Há umas semanas atrás fui contactada por uma das maiores empresas do sector editorial português.
Amigáveis no trato, na aproximação, mas não nos preços que praticam para com os locutores.
Foi-me proposto 2 horas de locução, a 25 Euros por hora!
Recusei.
Claro que como o mercado está a vender é uma forma de monopólio no qual se promove o domínio de determinada oferta.
Até aqui tudo bem. O que não está bem, é baixarem os preços a preço de banana! (salvo seja que até as bananas estão caríssimas!)
Ora, com 30 anos de profissão, e percebendo que o tempo “das vacas gordas já era”, há no mínimo a dignidade com que mantenho o meu desempenho nesta profissão. E desculpem, mas não o mantenho a baixar os preços desta forma.
Quando vejo colegas nossos a fazerem certos trabalhos (muitos deles mal feitos, mas essa é outra questão) por preços que não “lembram nem ao diabo” penso que estou perante um amador, e não de um profissional!
Quando tabulamos um preço, temos custos que temos de ter em conta, e temos de fazer bem as contas para não entrámos numa roda viva de despesas. Como devem perceber, além de outras questões de custo inerentes, este trabalho envolve quase sempre um recibo verde. Agora façam as contas. Depois de duas horas a gravar mais os impostos, digam-me quanto este locutor que irá fazer este trabalho depois de eu o ter recusado irá beneficiar.
Há que ter e manter o mínimo de dignidade e profissionalismo perante situações desta natureza. Quem não cumpre com os mínimos de uma tabela de preços, que apesar de não ser legal, serve de base para não andarmos aqui a brincar aos locutores e dobradores, é no mínimo um animador desta área!
E não, não são as empresas as culpadas. São todos aqueles que dão voz ao mercado português de Portugal, que baixam os preços indiscriminadamente.
Olho para o mercado aqui em Inglaterra, e vejo os meus colegas de trabalho, a reclamarem com as empresas e com os seus clientes pelos preços decentes, mínimos de trabalhos de locução e dobragem. E pergunto-me porque é que em Portugal não somos unidos e não defendemos o nosso território. E não me venham com desculpas que é por causa da crise, ou disto ou daquilo, que NÃO HÁ DESCULPAS que nos façam ser menos que os outros! NÃO HÁ. Somos profissionais, muitos de nós, muito bons no que fazemos. Então porque não nos pautamos por uma ética, brio e profissionalismo, que tantos anos de profissão nos custaram?
Este não é de todo um bom exemplo a quem começa na área. E atenção, que há gente a começar, que num ápice se tornam bem melhores que aqueles que andam aqui há anos!
Tudo é cíclico. Este mercado não é excepção. Façam-se valer da competência que têm, do curriculum que fizeram ao longo dos anos.
O mercado está a mexer, está diferente é verdade, mas isto não é desculpa para não estarmos informados, e muito menos para baixar preços, muitas vezes (senão a maior parte das vezes) cairmos em esquemas de clientes ou empresas que nos dizem que estamos em crise, e que há outras vozes e blá blá blá, pois o que na realidade se passa é um blá blá blá constante para que toda a gente baixe preços, e para que nas costas de cada locutor ou dobrador se ganhe dinheiro. Todos ganham, menos nós.
As próprias empresas têm de ter consciência disto mesmo. Se querem um profissional têm de pagar por isso. Há que fazer também a sua parte nesta matéria. E não deixar que o cliente os pressione com preços e “precinhos” da tanga. Porque é mesmo isso TANGA.
Depois deste telefonema que atendi, resolvi perceber se esta empresa estava com problemas económicos, e verifiquei, tal como previsto, que não. Muito pelo contrário, até tinham aumentado o ano transacto os seus lucros.
Esquemas há muitos, locutores e dobradores também. Agora bons profissionais com ética há poucos, muito poucos!
Depois não se admirem, deste ou aquele, só porque vende porque tem imagem nas Tv´S do burgo, levarem rios de dinheiro por este anúncio ou por aquele trabalho, muitas vezes mal feito, como tantas vezes oiço e vejo.
Sejam profissionais, não sejam amadores. E por favor defendam o mercado da locução e dobragem em Portugal. Defendam o Vosso ganha pão. E aqui, incluo as empresas portuguesas. Pois muitos dos trabalhos são encomendas do estrangeiro. E por favor, não caiam nas cantigas “do bandido” e deixem de ser uns conformados com a crise e com a falta de dinheiro. Porque ele existe. E se existe para uns, deverá existir para todos.
Quando há muitas desculpas, o caminho de um profissional a sério, nunca será o melhor caminho!

Boas locuções, melhores audições, e acima de tudo melhor ética profissional!

Teresa Silva

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