A propósito de uns anúncios que andam a passar nas televisões e rádios portuguesas, hoje quero falar de algo (como dizia uma senhora da rádio que faz o favor de me ter aturado alguns anos), que me “incanita “. Penso eu que utilizaria esta expressão imaginando uma matilha de cães a bradar aos céus.
Há vozes que se levantam em certas publicidades que dá vontade de mandar o aparelho contra a parede, e anúncios onde os locutores falam tudo menos o português neutral.
E não, não são vozes de burro.
Aquilo deve ser uma língua que anda para aí na moda a ser inventada. Ou então até podemos usar a desculpa que como a língua é viva, assim vai crescendo. Mal! Mas vai crescendo.
E pior, a olhos visto e impregnando-se na ignorância do cliente que paga uma “pipa de massa” aos intermediários, ficando quase sempre o LocutorActor com o restante que sobrar.
Aquilo bem dividido dá para todos. Deve ser este o espirito.
É claro estou a generalizar. Pois sei por experiência própria que não é assim que acontece em alguns estúdios ou bancos de vozes espalhados por esse mundo fora.
Bem…até aqui fecho os olhos.
Agora o profissional que se apresenta ao micro, deve ter uma coisa que pode ir ver o seu significado ao dicionário. Ou melhor, eu vou ver, e passo a citar:
BRIO: Sentimento que induz a cumprir o dever ou a fazer algo com perfeição ou sentido de responsabilidade.
“brio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Muitas vezes aos locutores pagam-lhes para fazerem …desculpem a honestidade …figuras.
E “coitados” dos locutores Actores que as têm mesmo de fazer, porque o cliente manda, e paga. E contra factos não há argumentos.
Já cheguei a recusar essas “figuras”? Já. Mas isso sou eu, é a minha opção. Assim como já cheguei a recusar certos preços, e fazer trabalhos de graça, só porque a dignidade e o respeito são valores que admiro. Já. Mas volto a dizer, isso sou eu, são as minhas opções e os meus valores morais.
Os clientes pagam a voz do locutor, a imagem do actor, mas nem isso faz com que digam bem as palavras ou interpretem bem o texto. Enfim…Ele há de tudo!
É que a mensagem que é transmitida por uma marca é um todo, senhores!
Quem contrata é igualmente culpado. É negligente. E deve estar mais bem informado.
E não, o cliente nem sempre tem razão!
Desde problemas articulatórios, fonéticos, de expressividade da fala, de gente que inclusivamente necessita de terapia da fala, ele há mesmo de tudo!
Os espanhóis por exemplo, (que também passam por estes desafios, assim como em outras línguas, tal como o Inglês, já para não falar em “Acents “) têm uma musicalidade na fala muito diferente da nossa. Logo, se o anúncio, a marca, o original, vem de lá, toda a publicidade que chega para ser gravada em Portugal tem de manter o seu original, até na entoação que se dá. Ora…por vezes lá vêm as figurinhas. E é assim, e pronto!
E como é o cliente que paga… ás vezes até paga bem (entenda-se a preço de tabela) e até paga a horas, coisa rara nestes dias, lá vai disto.
– …eu é que não sou parvo!
E andamos assim, surdos mudos. A ouvir coisas que não conseguimos ouvir por muito que queiramos e nos fiquem para sempre no ouvido como as Media MarkT da vida, as Jom, ou das Matriz auto (entre outros que podia enunciar, mas estes são os que me chegam á memória auditiva) , e a calarmo-nos que nem uns tontinhos porque o cliente paga e até paga a horas.
E quantas vezes um anúncio irritante, não ficou para sempre na nossa memória?
Como se sabe o mundo da locução em Portugal não está de boa saúde. E por isso são muitos dos colegas sujeitos a estas questões de um anúncio que sabem que se torna ridículo ao ser ouvido.
Há duas soluções, ou se faz e ganha-se o dinheiro, ou não se faz. É a opção do locutor. E se não o fizer, há outro quem o faça.
São os princípios de cada um que não devem, (na minha opinião) serem postos em causa, porque no fundo o valor real em causa é o mesmo, o sustento.
Mas o que quero realçar nesta conversa toda, são as pessoas que contratam.
Quantas vezes, eu própria já estive em estúdio, gravei “500” vezes a mesma frase, e foi a primeira que ficou?
Quantas vezes há anúncios que trazem vozes sem expressividade na fala?
Quantas vezes ouvimos vozes menos adequadas para um tipo de anúncio, e locutores que não sabem o que estão a fazer?
E quantas vezes o cliente não entende nada de voz, e muito menos de locução e de texto escrito para a fala?
Tenho a dizer-vos que há anúncios e anúncios, e que há locutores e locutores.
Na minha modesta opinião, não. O cliente nem sempre tem razão. E muito menos quem contrata locutores que não sabem falar o português e têm dificuldades ao nível da fala.
Porque os outros locutores que fazem as tais ditas “figuras” acusados por outros locutores que que as estão a fazer, só estão a sustentar as suas vidas.
Por isso, os clientes deveriam instruir-se melhor nestas matérias.

Teresa Silva

Don`t copy text!